* Especialista explica por que ideias difundidas sobre o cérebro nem sempre correspondem ao que mostra a neurociência atual. - (Foto: Divulgação/Santé)
A gente cresce ouvindo uma série de “verdades” sobre o cérebro. Mas muitas delas não passam de mitos repetidos há anos, mesmo sem nunca ter tido qualquer base científica.
Quando alguém diz que não consegue aprender um novo idioma depois de adulto ou que trabalha melhor fazendo várias coisas ao mesmo tempo está se apoiando em conceitos ultrapassados, que se espalharam ao longo do tempo, moldando decisões, hábitos e a forma como as pessoas enxergam as próprias capacidades.
Estudos mais recentes revelam que o cérebro é muito mais complexo, dinâmico e adaptável do que se imaginava.
Segundo a neurocientista Carol Garrafa, revisar essas ideias não se trata apenas de corrigir um equívoco teórico. Significa abrir espaço para decisões mais inteligentes, e para um uso mais eficiente do próprio potencial cognitivo. E isso implica em melhorar nossa relação com aprendizado, memória e até com a forma como cuidamos da saúde mental. A seguir, Carol explica o que é fato e o que é fake sobre nosso cérebro:
1) “Usamos só 10% do cérebro”
A ideia de que usamos apenas 10% do cérebro não encontra respaldo científico. Segundo estudos da Universidade de Oxford, utilizamos praticamente todas as áreas cerebrais ao longo do dia, ainda que não ao mesmo tempo. “O cérebro é um órgão extremamente eficiente, com áreas que se ativam de forma coordenada conforme a necessidade. E não existe uma parte ‘desligada’ esperando para ser usada”, explica a neurocientista. “Diferentes regiões entram em atividade conforme a tarefa, seja uma conversa, uma decisão ou até um momento de descanso”, ressalta.
Exames de neuroimagem mostram que mesmo atividades simples mobilizam múltiplas áreas simultaneamente. E, segundo a neurocientista, mesmo em repouso, o cérebro segue altamente ativo, regulando funções vitais e organizando informações.
Na prática, a ideia dos 10% criava uma falsa sensação de áreas não utilizadas. Como se existisse realmente uma pílula, como no filme Lucy, que deixasse um “modo avançado” do cérebro que poderia ser desbloqueado e você teria super poderes. “A ciência mostra o contrário”, afirma Carol. “O cérebro está em funcionamento o tempo todo, mas não com o máximo potencial pelo mau uso que fazemos dele, pelas crenças limitantes e sobrecarga. O diferencial não está em ativar mais áreas, mas em como usamos, treinamos e integramos as capacidades que já temos”, diz ela.
2) “Depois de adulto fica muito difícil aprender”
A ideia de que o cérebro “trava” com a idade é comum, mas não se sustenta. O que muda ao longo dos anos não é a capacidade de aprender, mas a forma como o aprendizado acontece.
Segundo pesquisa da Universidade de Columbia (EUA), o cérebro adulto continua sendo capaz de formar novas conexões neurais ao longo da vida. “Esse processo, chamado neuroplasticidade, permite que novas habilidades sejam adquiridas em qualquer fase”, indica Carol.
“Crianças aprendem mais rápido porque estão constantemente expostas a estímulos inéditos e erram sem resistência. Adultos, por outro lado, tendem a evitar o desconforto do erro e isso pode criar uma falsa ideia de que existe uma dificuldade maior”, explica a CEO da Santé.
O que fazer, então, na prática? “O melhor a fazer é criar uma rotina de aprendizados onde haja espaço para novos estímulos, acreditando no processo e no progresso contínuo da prática, sem esperar algo sem esforço, como aprender um idioma, instrumento musical ou trabalho manual, por exemplo”, indica Carol. “Aprender na fase adulta não só é possível como é essencial para manter o cérebro ativo e saudável”, afirma a neurocientista.
3) “Fazer várias coisas ao mesmo tempo aumenta a produtividade”
Realizar várias tarefas simultaneamente pode ser muito prejudicial à produtividade.
Responder mensagens enquanto participa de uma reunião, alternar entre abas e tarefas ou tentar resolver tudo ao mesmo tempo pode dar a sensação de eficiência. Mas o cérebro não trabalha assim.
Com base em um estudo realizado pela Universidade de Stanford, descobriu-se que os participantes que realizavam tarefas ao mesmo tempo tinham mais erros e menos eficiência do que aqueles que as faziam em sequência. "Um dos maiores equívocos sobre a multitarefa é acreditar que ela nos torna mais produtivos”, diz Carol. “O cérebro humano não foi projetado para executar várias coisas ao mesmo tempo, o que ele faz, na verdade, é alternar rapidamente o foco entre elas. E essa alternância tem um custo: mais erros, maior fadiga mental e, no fim, menos eficiência", explica a especialista.
Segundo Carol, o que chamamos de multitarefa é, na verdade, uma alternância rápida de atenção. “Cada troca exige um “custo cognitivo”, que reduz a qualidade da execução e aumenta o tempo total das tarefas”, reitera.
O melhor a fazer, segundo a neurocientista, é trabalhar em blocos de tempo com foco único, reduzindo interrupções. “Vale a pena colocar o celular no modo avião para evitar as constantes notificações”, explica. “Priorizar tarefas que exigem maior carga mental no início do dia também é uma excelente medida.”
4) “Álcool mata os neurônios”
O consumo de álcool não “mata neurônios” de forma direta em situações pontuais. No entanto, o uso frequente e em grande quantidade interfere na comunicação neural, afetando memória, coordenação, tomada de decisão e controle emocional. “O impacto da substância é mais funcional do que imediato. Ela afeta como o cérebro opera, especialmente no longo prazo”, afirma a neurocientista Carol Garrafa. “Por isso, o mais importante é observar a frequência e a quantidade do consumo. Evitar excessos, respeitar períodos de recuperação e ficar atento a sinais como alteração de memória, sono e foco são medidas fundamentais para preservar a saúde cerebral.”
5) “Memória funciona como um HD”
Na realidade, essa informação é falsa. Segundo um estudo feito pela Universidade Northwestern (EUA), o cérebro insere ativamente situações e sentimentos do presente em memórias do passado.
Ao contrário de um sistema de armazenamento rígido, a memória humana é reconstruída constantemente. “Cada vez que lembramos de algo, o cérebro pode atualizar essa lembrança com emoções, informações e interpretações do presente. Isso significa que memórias não são registros exatos, mas narrativas que evoluem ao longo do tempo”, explica Carol.
"Nossas memórias são moldadas pelas experiências que acumulamos ao longo do tempo. O amor à primeira vista pode ser, na verdade, um efeito desse mecanismo. Ao se lembrar de quando conheceu seu parceiro, você pode ter a sensação de que sentiu amor e euforia naquele instante, mas isso talvez seja uma projeção do que sente hoje, e não uma memória precisa do passado", reflete a especialista.
Esse mecanismo explica também, por exemplo, porque duas pessoas podem lembrar de um mesmo evento de formas diferentes ou porque lembranças mudam com o passar dos anos. “Nossas memórias não são arquivos fixos, mas construções dinâmicas”, explica a neurocientista.
6)“Esquecer é sempre um problema”
Nem sempre. Ao contrário do que muitos pensam, a memória não foi projetada para armazenar tudo. “O esquecimento está longe de ser uma falha: é uma estratégia do cérebro para se manter eficiente”, explica Carol. “Ele seleciona o que é mais importante e prioriza informações relevantes, descartando aquilo que não é utilizado ou não tem valor prático no momento”, explica.
Esse mesmo mecanismo também libera espaço para novas informações, como um sistema de filtragem. “Isso é essencial para evitar sobrecarga. Se lembrássemos de todos os detalhes o tempo todo, teríamos mais dificuldade de tomar decisões, focar e aprender coisas novas”, explica a neurocientista.
Na prática, o que muitas vezes é interpretado como “memória ruim” pode estar relacionado à falta de atenção no momento em que a informação foi recebida, e não à incapacidade de armazená-la. “Outro ponto importante é que a memória se fortalece com uso”, acrescenta a especialista. “O cérebro entende como relevante aquilo que você usa. Se uma informação não voltar a ser acessada, ele simplesmente deixa de priorizá-la”, afirma Carol.
“Mais do que tentar lembrar de tudo, o ideal é criar estratégias para memorizar o que realmente importa”, orienta a especialista. “Organizar a informação, revisitar conteúdos e aplicar o que foi aprendido são formas eficientes de reter informações”
7)“O lado esquerdo do cérebro é lógico e o direito é criativo”
Atribuir a lógica ao hemisfério esquerdo e a criatividade ao direito é uma visão reducionista que a ciência já superou. O cérebro não funciona dessa forma compartimentada. Temos dois sistemas, um racional e um emocional, mas não são divididos assim nos dois hemisférios, o sistema racional está no que chamamos de pré-frontal e o emocional no sistema límbico.
“A criatividade, raciocínio e tomada de decisão dependem de redes neurais ligadas pelos dois sistemas e não de apenas um lado isolado. Isso significa que pensar de forma criativa ou lógica envolve múltiplas áreas trabalhando juntas”, explica a CEO da Santé.
“A partir do avanço da neurociência, abre-se espaço para uma visão mais realista e, ao mesmo tempo, mais potente sobre o funcionamento do cérebro, baseada não em simplificações, mas em evidências.”
Sobre Carol Garrafa: engenheira de formação, com especialização em Neurociência e MBA em Finanças além de MBA na EM Lyon (França), Carol Garrafa é a idealizadora do Método Santé, iniciativa que já transformou equipes corporativas e impactou milhares de pessoas ao integrar propósito, produtividade e bem-estar. É autora do livro People Skills: uma vida de propósito (Editora Dialética). Palestrante, mentora e conselheira de empresas, leva sua experiência em estratégia e People Skills como ferramenta de potencialização dos cérebros e resultados para o ecossistema corporativo. Antes de dedicar-se ao estudo profundo do comportamento humano, construiu uma carreira sólida no mercado financeiro, atuando em instituições como Itaú Unibanco e Coca-Cola, onde liderou áreas ligadas à estratégia e negócios digitais.
Sobre a Santé: A Santé é uma consultoria especializada em People Skills e neurociência aplicada à liderança, fundada por Carol Garrafa. Com metodologia própria, a empresa atua no desenvolvimento humano dentro das organizações, promovendo equilíbrio entre performance, propósito e bem-estar. Já impactou mais de um milhão de pessoas e mais de 150 empresas, entre elas TikTok, iFood, Azul, Itaú, Porsche Consulting e Bayer. A Santé acredita que “felicidade gera lucratividade”, e que o verdadeiro sucesso nasce quando líderes aprendem a equilibrar razão, emoção e propósito.
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